Durante mais de três décadas, o mundo habituou-se a uma ordem internacional relativamente previsível. Após o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos assumiram uma posição de liderança incontestável, o comércio global expandiu-se, as cadeias de abastecimento internacional tornaram-se mais eficientes e a globalização parecia caminhar num único sentido: integração crescente.
POC NOTÍCIAS | REDACÇÃO | geral@pocnotícias.ao | FOTO: DR
Hoje, esse paradigma está a ser desafiado.
O que estamos a testemunhar não é apenas uma sucessão de crises isoladas. Estamos perante uma transformação estrutural da geopolítica mundial. A rivalidade entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, as tensões no Médio Oriente, a expansão dos BRICS e a crescente fragmentação do comércio internacional são manifestações de uma realidade maior: a transição para uma nova ordem global.
A grande questão já não é quem lidera o mundo. A questão é se o mundo continuará a ter um único líder.
A ascensão económica e tecnológica da China alterou profundamente os equilíbrios internacionais. Pela primeira vez desde o colapso da União Soviética, os Estados Unidos enfrentam um concorrente com capacidade económica, influência diplomática e ambição estratégica suficientes para disputar espaços de poder à escala global.
Em resposta, assistimos ao regresso de conceitos que muitos julgavam ultrapassados. Segurança energética, soberania industrial, autonomia tecnológica e proteccionismo voltaram ao centro das decisões económicas. Empresas e governos já não tomam decisões apenas com base na eficiência ou no custo. A geopolítica passou a influenciar directamente os investimentos, as exportações e as cadeias de valor.
O fenómeno conhecido como “friendshoring”, através do qual os países procuram produzir e comercializar preferencialmente com parceiros considerados politicamente confiáveis, é um dos sinais mais evidentes desta nova realidade. O comércio internacional está cada vez mais condicionado por interesses estratégicos.
Para África, este cenário representa simultaneamente riscos e oportunidades.
Por um lado, a fragmentação económica global pode reduzir o dinamismo do comércio e aumentar a volatilidade dos mercados. Por outro, a competição entre grandes potências está a aumentar o interesse estratégico pelo continente africano, sobretudo devido aos seus recursos minerais, ao potencial energético e ao crescimento demográfico.
Minerais críticos para a transição energética, como o cobre, o cobalto, o lítio e as terras raras, tornaram-se activos geopolíticos de primeira ordem. A corrida pela segurança dos recursos poderá redefinir o posicionamento económico de vários países africanos durante as próximas décadas.
Angola encontra-se numa posição particularmente interessante. O país dispõe de recursos energéticos relevantes, localização geográfica estratégica e potencial para se afirmar como um actor cada vez mais importante nas cadeias globais de abastecimento. Contudo, para transformar esta oportunidade em desenvolvimento sustentável, será necessário evitar um erro histórico: limitar-se a exportar recursos sem desenvolver capacidades internas.
A nova geopolítica não recompensa apenas quem possui recursos. Recompensa quem consegue transformá-los em influência económica, industrial e tecnológica.
O mundo está a entrar numa era marcada por múltiplos centros de poder, alianças mais flexíveis e maior competição estratégica. Neste contexto, os países que melhor compreenderem as mudanças em curso serão aqueles que conseguirão antecipar tendências, atrair investimento e proteger os seus interesses nacionais.
A história ensina-nos que as grandes transformações globais criam vencedores e perdedores. A diferença raramente está nos recursos disponíveis. Está, sobretudo, na capacidade de visão e preparação.
A nova ordem mundial já começou. A questão é saber quem estará preparado para prosperar nela.
* Osvaldo Manuel, Consultor de Comunicação I Kreab Angola
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