No seu discurso sobre o Estado da Nação, o Presidente da República destacou os avanços registados no sector da educação, apresentando dados que apontam para uma taxa de analfabetismo de 24% e um crescimento significativo do número de alunos e instituições escolares. No entanto, à luz da dimensão populacional do país, esses números levantam interrogações e expõem fragilidades estruturais do sistema educativo angolano.
Se tomados à letra, os 24% de analfabetismo corresponderiam a cerca de 8,4 milhões de pessoas, um número elevado, mas que segundo fontes do POC NOTÍCIAS, consideram subestimado, tendo em conta as desigualdades territoriais, a falta de acesso em zonas rurais e as limitações no sistema de registo estatístico. Num país em que mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a realidade no terreno mostra grandes assimetrias entre as áreas urbanas e rurais, com milhares de crianças e adultos ainda fora do sistema de ensino formal.
Segundo o Presidente, 9,6 milhões de alunos estão actualmente matriculados, distribuídos por 126.204 salas de aula e apoiados por 208.488 professores em todos os níveis de ensino. Embora o Executivo apresente estes números como uma conquista, a relação entre a população total e o número de alunos matriculados evidencia que uma parte significativa continua de fora da escola, ou tem acesso limitado a uma educação de qualidade.
No ensino superior, o país conta com 106 instituições e 330 mil estudantes, um crescimento expressivo face ao período pós-independência. Porém, este avanço contrasta com o défice de quadros técnicos e científicos e com a falta de absorção de jovens no mercado de trabalho, o que agrava a percepção de que a expansão da rede escolar nem sempre se traduz em desenvolvimento real.
O próprio Presidente anunciou ainda que mais de 5 milhões de alunos serão abrangidos pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar, medida que pretende reduzir o abandono escolar. No entanto, esta iniciativa cobre pouco mais de metade do total de alunos matriculados, deixando claro que a cobertura do sistema ainda não é universal.
Os números oficiais mostram uma fotografia optimista, mas a realidade do país, com quase 35 milhões de habitantes, aponta para um fosso muito maior entre estatísticas e factos sociais. O analfabetismo funcional, a falta de acesso à escola e as desigualdades regionais continuam a comprometer o direito à educação universal, fazendo da alfabetização um dos maiores desafios do desenvolvimento nacional.




