Consulado de Portugal já emitiu um alerta e a situação não passou despercebida a personalidades como Gilmário Vemba ou Isabel dos Santos.
FONTE: CNN PORTUGAL | TEXTO: Marta Coropos Carvalho
A cidade de Luanda vive momentos de elevada tensão. Esta segunda-feira, dia 28, ficou marcada pelo caos: barricadas, pneus a arder, tiroteios, apedrejamentos de autocarros, pilhagens de lojas e confrontos com a polícia multiplicaram-se em vários pontos da capital angolana. Há registo de quatro mortos e mais de 500 detenções, avançam as autoridades.
Tudo começou com o aumento dos combustíveis
Há várias semanas que os angolanos, asfixiados pelo aumento do custo de vida no país, saem à rua organizados em movimentos de contestação social. No entanto, desta vez os protestos atingiram outra dimensão.
A origem do mal-estar atual remonta à subida do preço do gasóleo, que passou de 300 para 400 kwanzas por litro (cerca de 28 para 37 cêntimos) no início do mês. Isto é o mesmo do que, em Portugal, o preço do gasóleo aumentar 54 cêntimos de uma só vez, tendo por base os salários médios dos dois países.
Esta alteração faz parte da política do governo angolano de retirar gradualmente os subsídios aos combustíveis, uma medida iniciada em 2023 para aliviar a pressão sobre as contas públicas.
Como resposta, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) reajustou a tarifas dos transportes públicos, o que agravou o custo de vida, num país onde grande parte da população depende do transporte informal (como os táxis coletivos) para se deslocar.
Greve dos taxistas: o rastilho que incendiou a cidade
A gota de água veio com a paralisação dos serviços de táxi, convocada para os dias 28, 29 e 30 de julho por várias associações e cooperativas da classe, com o lema “fica em casa”. O protesto visava pressionar o governo a negociar soluções para a atividade, que dizem estar insustentável. Exigem que sejam definidas paragens para as viaturas que conduzem e a criação de uma carteira profissional do setor.
No primeiro dia da greve, milhares de pessoas foram apanhadas no meio do turbilhão, incluindo trabalhadores sem transporte e cidadãos sem alternativas seguras de mobilidade.
Violência e vandalismo
A Associação Nacional dos Taxistas de Angola (ANATA) veio a público demarcar-se dos atos de violência, atribuindo os distúrbios a “oportunistas” e “elementos estranhos à classe”, sublinhando que o protesto estava pensado para ser “pacífico, ordeiro e silencioso”. A ANATA decidiu manter a greve pelos três dias previamente anunciados.
Apesar disso, o cenário de desordem urbana continuou. A Polícia Nacional de Angola deteve, durante o dia, mais de 100 pessoas suspeitas de atos de vandalismo. 20 autocarros públicos ficaram completamente destruídos, assim como 25 viaturas particulares.
Várias pessoas foram vistas a queimar cartazes com a imagem de João Lourenço. A segurança do Palácio Presidencial, a residência oficial do presidente da República – que se encontra de visita a Portugal – foi reforçada, com recurso a polícias e militares.
A Polícia Nacional de Angola, no entanto, descreve a situação na capital como “pequenos focos de desordem” que tinha “sob controlo”, mas promete medidas drásticas contra os responsáveis.
A cidade acordou esta terça-feira com as portas dos estabelecimentos comerciais, bancos e instituições encerradas. As empresas optaram por colocar os funcionários em regime de teletrabalho para garantir a segurança dos colaboradores. O silêncio domina as principais avenidas, onde não há qualquer “candogueiro” (táxi azul e branco) ou autocarro a circular.
A Associação das Empresas do Comércio e da Distribuição Moderna de Angola (Ecodima) manifestou profunda preocupação sobre o risco no abastecimento de produtos essenciais, o que poderá ter consequências económicas e sociais mais amplas nos próximos dias.
O Ministério do Interior angolano classificou os eventos como “ações criminosas premeditadas”, que atentam contra a estabilidade pública e representam um ataque ao Estado democrático e de direito.
Face à situação, o consulado de Portugal em Luanda emitiu um alerta aos cidadãos portugueses, recomendando prudência, vigilância e a evitação de deslocações desnecessárias.
Críticas à ação do governo
Entre as figuras públicas angolanas, as críticas ao Governo multiplicam-se.
O humorista Gilmário Vemba utilizou as suas redes sociais para partilhar um desabafo sobre a situação que o país atravessa, acompanhado de vídeos dos protestos.
“O verdadeiro vandalismo é ignorar o grito do povo. É aumentar o preço dos combustíveis sem garantir transportes públicos para pessoas e bens. Temos que começar a nos perguntar quem é o verdadeiro vândalo. Quem realmente está a vandalizar o bem estar do cidadão angolano. Será aquele que grita todos os dias por um pouco de comida no prato ou aquele que assumiu melhorar vida das pessoas e não fez e ainda pior, ignora-o completamente?”, pode ler-se na publicação do humorista.
A empresária Isabel dos Santos, antiga presidente do conselho de administração da Sonangol, a empresa nacional de petróleo de Angola, acusa o atual governo de “má gestão” e ” má governação”. Critica os “preços altos”, nomeadamente o do combustível, que é “muito alto para o salário”.




