A inflação homóloga em Angola fixou-se em 12,42% em Março de 2026, confirmando uma trajectória de desaceleração pelo terceiro mês consecutivo. Ainda assim, a leitura fina dos dados revela que a pressão sobre o custo de vida permanece estruturalmente elevada, com destaque para transportes, energia e alimentação – sectores críticos para a estabilidade económica e social.
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De acordo com a mais recente nota do Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de inflação registou uma redução de 0,93 pontos percentuais face a Fevereiro e uma queda expressiva de 11,43 pontos percentuais em termos homólogos, evidenciando um abrandamento relevante, mas não necessariamente sustentável no médio prazo.
A evolução descendente do índice, visível no gráfico de tendência dos últimos 12 meses, reflecte sobretudo um efeito de base elevado em 2025, quando a inflação atingiu níveis superiores a 23%. A actual desaceleração, embora positiva, ocorre num contexto ainda marcado por desequilíbrios estruturais na oferta interna e dependência de importações. Em termos práticos, os preços continuam a subir – apenas a um ritmo menos acelerado.
A análise por classes de despesa revela uma pressão significativa nos sectores mais sensíveis, com os transportes a liderarem os aumentos, registando uma variação de 16,59%, seguidos pela habitação, água, electricidade e combustíveis, com 15,49%, enquanto saúde e educação avançam ambos 13,40%. Já a alimentação e bebidas não alcoólicas apresentam uma variação de 12,72%, mantendo-se como um dos principais motores inflacionistas.

Apesar de não liderar em termos percentuais, o sector alimentar continua a ser o principal responsável pela inflação sentida pelas famílias. Segundo o INE, a classe “Alimentação e bebidas não alcoólicas” contribuiu com 7,73 pontos percentuais, representando mais de 62% do impacto total no índice geral, o que confirma que a pressão inflacionista em Angola incide sobretudo sobre bens essenciais e de consumo diário.
A leitura territorial reforça esta complexidade, com uma dispersão significativa entre províncias. Cabinda surge como a região com maior variação de preços, atingindo 19,56%, seguida de Malanje (14,62%) e Lunda Sul (14,58%). Em contraste, Cunene (9,87%), Huambo (9,93%) e Namibe (10,55%) apresentam as variações mais moderadas, sugerindo assimetrias relevantes nas cadeias de abastecimento e nos custos logísticos.
A trajectória descendente da inflação constitui um sinal positivo para a estabilidade macroeconómica, mas a sua leitura exige prudência. A persistência de custos elevados nos transportes e na energia continua a gerar efeitos de segunda ordem sobre os preços, ao mesmo tempo que a dependência de importações mantém a economia vulnerável à volatilidade cambial. Paralelamente, a pressão sobre os rendimentos reais das famílias permanece significativa, sobretudo entre os estratos mais expostos ao consumo de bens essenciais.
Se a tendência actual se mantiver, Angola poderá encerrar o primeiro semestre com uma inflação inferior a 12%, consolidando um ciclo de desinflação. Ainda assim, a sustentabilidade deste movimento dependerá de factores estruturais, como a estabilização do câmbio, o reforço da produção interna e a melhoria das cadeias logísticas. No essencial, a inflação está a abrandar, mas não está resolvida: o desafio passa agora por reduzir de forma consistente a vulnerabilidade da economia angolana a choques internos e externos.
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