Quatro organizações da sociedade civil angolana lançaram um apelo público à Federação Argentina de Futebol (AFA), à sua selecção nacional e ao jogador Lionel Messi, para que cancelem o jogo amistoso com os Palancas Negras, previsto para Novembro, em Luanda, no âmbito das comemorações dos 50 anos da independência de Angola.
A Comissão Episcopal de Justiça e Paz e Integridade da Criação da CEAST, a Pro Bono Angola, a Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD) e a Friends of Angola (FoA) argumentam que a realização do evento, com custos milionários, contrasta de forma “chocante” com a grave crise social e económica que o país atravessa.
De acordo com dados do relatório SOFI 2025 – O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo, mais de 27 milhões de angolanos (71,4% da população) não tiveram acesso a uma dieta saudável em 2024. A subnutrição afecta 22,5% da população, cerca de 8,3 milhões de pessoas.
“Enquanto recursos públicos são canalizados para eventos desportivos de grande porte, milhares de crianças e adultos enfrentam fome crónica, anemia severa e insegurança alimentar”, denunciam as organizações.
O apelo também destaca o agravamento da repressão política no país. Apenas entre 28 e 30 de Julho de 2025, os protestos populares resultaram em 30 mortos, 277 feridos e 1.515 detenções, segundo dados divulgados. Entre as violações apontadas estão prisões arbitrárias, uso excessivo da força policial e criminalização da liberdade de expressão, situações documentadas por entidades como Amnesty International e Human Rights Watch.
As organizações sublinham que a realização do jogo “não é uma prioridade legítima”, mas sim um “instrumento de propaganda política”, usado para desviar a atenção da crise. O cancelamento, afirmam, seria “um gesto nobre de solidariedade internacional” e um acto de coragem ética e humanitária.
“Senhor Messi, Senhores da AFA: a vossa recusa em participar neste jogo seria uma mensagem clara ao mundo de que a justiça, a dignidade e a igualdade valem mais do que qualquer espectáculo desportivo financiado com o sofrimento de um povo”, conclui a carta aberta.