“A crescente procura por serviços de diagnóstico e acompanhamento auditivo em Angola reflecte, mais do que um aumento das patologias, uma maior consciencialização da população para a importância da saúde auditiva, durante muito tempo negligenciada no país”, afirmou Priscilla Thompson, fonoaudióloga e coordenadora da Audioclinic, em entrevista ao POC NOTÍCIAS.
POC NOTÍCIAS | SOCIEDADE | EMANUEL DOMINGOS | geral@pocnoticias.ao | Foto: DR
Segundo a especialista, os dados registados pela instituição, que já realizou mais de 29 mil rastreios auditivos, revelam que os angolanos estão progressivamente mais atentos ao impacto da audição na comunicação, no desempenho escolar e profissional e na qualidade de vida. “Actualmente as pessoas procuram-nos mais e percebem melhor o papel central da audição no quotidiano”, sublinhou.
Entre os grupos mais vulneráveis às perdas auditivas, Priscilla Thompson destaca as crianças em idade escolar e os jovens adultos, sobretudo aqueles expostos a ruídos ocupacionais e a sons de elevada intensidade no dia a dia. O contexto socioeconómico surge como um factor determinante no acesso ao diagnóstico precoce, uma vez que as populações com menor acesso à informação e aos cuidados de saúde tendem a procurar ajuda apenas em fases avançadas da doença.

A coordenadora da Audioclinic chama ainda a atenção para falhas persistentes no sistema de saúde, nomeadamente ao nível da prevenção e do rastreio sistemático. “A audição raramente é avaliada de forma periódica, tanto na infância como na idade adulta, e muitos sinais iniciais não são valorizados”, explicou, acrescentando que esta realidade contribui para diagnósticos tardios e perdas auditivas já instaladas.
Embora os rastreios representem um passo importante na prevenção, uma parte significativa dos casos identificados necessita de acompanhamento clínico continuado, seja em otorrinolaringologia, audiologia ou reabilitação auditiva. Garantir a continuidade dos cuidados constitui, segundo a especialista, um dos principais desafios do sector.
A concentração dos serviços em Luanda é outro obstáculo apontado, uma vez que a descentralização efectiva dos cuidados auditivos exige planeamento progressivo, recursos humanos qualificados e alinhamento com as prioridades do sistema nacional de saúde. Factores ambientais, hábitos de vida e exposição ao ruído, apesar de reconhecidos, carecem ainda de maior integração nas estratégias de educação e prevenção.
Actualmente, a Audioclinic conta com uma equipa de nove colaboradores, apostando no trabalho multidisciplinar como base para a qualidade e humanização dos serviços. Para 2026, estão previstos novos investimentos centrados na tecnologia diagnóstica, no reforço das acções de prevenção e educação auditiva e na melhoria da experiência do paciente, numa estratégia de crescimento sustentável que procura conciliar inovação com compromisso social.
Para Priscilla Thompson, o caminho passa por uma actuação complementar entre o Estado e as unidades privadas de saúde, defendendo a cooperação como elemento-chave para responder de forma eficaz aos desafios das patologias auditivas em Angola.
@pocnoticias.ao




