A produção de culturas básicas em África, incluindo trigo e milho, poderá registar uma quebra de até 20% até 2050 caso o continente não acelere a sua adaptação aos impactos das alterações climáticas. O alerta consta de um estudo conjunto da Fundação Gates, do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) órgão das Nações Unidas e da Sesi Technologies.
POC NOTÍCIAS | EMANUEL DOMINGOS | geral@pocnoticias.ao | Foto: DR
“A redução da produção agrícola não se traduz apenas em menor disponibilidade de alimentos para consumo. Representa também uma ameaça directa à principal fonte de subsistência de milhões de africanos, num contexto em que a agricultura emprega mais de metade da força de trabalho da África subsaariana. A diminuição da produtividade poderá, assim, agravar a insegurança alimentar e aprofundar vulnerabilidades económicas e sociais”, lê-se no Estudo consultado pelo POC NOTÍCIAS.
Perante este cenário, o Grupo Banco Africano de Desenvolvimento defende que a adopção em larga escala da chamada agricultura climaticamente inteligente é determinante para reforçar a resiliência do sector. Estudos recentes apontam resultados encorajadores. Uma investigação conduzida pela organização Global Change Data Lab, em colaboração com a Universidade de Oxford, indica que, na África Ocidental, medidas relativamente simples como a alteração das datas de plantio e a selecção de variedades de culturas mais bem adaptadas às novas condições climáticas poderão não só evitar os declínios projectados, como aumentar a produtividade em até 13%.
No terreno, as Tecnologias para a Transformação Agrícola em África (TAAT) têm desempenhado um papel central na disseminação de soluções de alto impacto, como sementes resistentes à seca e ao calor. Em menos de uma década, a iniciativa já forneceu tecnologias climaticamente inteligentes e formação em boas práticas de adaptação a mais de 13 milhões de agricultores, resultando num aumento estimado de cerca de 25 milhões de toneladas na produção agrícola.
A Nigéria surge como um dos exemplos mais expressivos. Através do Mecanismo Africano de Produção Alimentar de Emergência, a TAAT disponibilizou 6.500 toneladas de sementes melhoradas, aliadas a acções de capacitação. Como resultado, a área cultivada com trigo passou de 11.820 hectares, em 2021, para quase 400 mil hectares, em 2025, com um aumento de quase 30% na produtividade nas regiões abrangidas. No total, o programa apoiou a distribuição de 29.600 toneladas métricas de sementes e mais de 180.400 toneladas métricas de fertilizantes, beneficiando 710 mil agricultores e culminando na produção de mais de 2,1 milhões de toneladas métricas de alimentos.
Em paralelo, organizações de agricultores, empresas privadas e operadoras de telecomunicações têm vindo a expandir soluções que combinam insumos agrícolas, apoio técnico, crédito e informação climática. Na África Ocidental, a empresa Ignitia, em parceria com operadoras como a MTN, fornece previsões meteorológicas localizadas baseadas em GPS, permitindo aos agricultores planear melhor actividades como a aplicação de fertilizantes e reduzir perdas.
O Banco Africano de Desenvolvimento já implementou mais de 80 tecnologias climaticamente inteligentes em todo o continente, incluindo milho tolerante à seca, trigo resistente ao calor, arroz adaptado às alterações climáticas, kits de irrigação economizadores de água e sistemas agroflorestais. Milhões de agricultores beneficiam destas soluções, muitas vezes sem saber que as mesmas resultam de iniciativas lideradas pelo Grupo BAD, uma vez que são operacionalizadas por governos, cooperativas e empresas privadas.
No domínio do financiamento, o Mecanismo Africano de Financiamento de Fertilizantes (AFFM) tem contribuído para reduzir riscos de crédito e assegurar o fornecimento de insumos essenciais. Entre 2019 e 2025, o mecanismo permitiu a distribuição de 145.772 toneladas métricas de fertilizantes, beneficiando 987.676 pequenos agricultores, dos quais 34,5% são mulheres, além de garantir formação em boas práticas agrícolas a mais de 171 mil produtores.
Os dados reforçam uma conclusão clara, sem adaptação rápida e investimento sustentado em tecnologias agrícolas resilientes, a África arrisca-se a enfrentar uma quebra significativa na produção de culturas essenciais como o trigo e o milho, com impactos profundos na segurança alimentar e no desenvolvimento económico do continente.
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