Luanda é o centro político, económico e cultural do país. Contudo, por detrás dos edifícios, das avenidas congestionadas e dos discursos sobre crescimento, cresce uma realidade silenciosa, dura e profundamente inquietante. Crianças e jovens que vivem do lixo e no lixo, fazendo da sobrevivência diária um exercício de resistência à pobreza extrema.
POC NOTÍCIAS | OPINIÃO | DOMINGOS BARROS | geral@pocnoticias.ao | Foto: DR
Em vários pontos da cidade, sobretudo nas zonas periféricas e junto a lixeiras, é comum ver menores a revirar contentores, montes de resíduos e sacos descartados, à procura de restos de comida, materiais recicláveis ou objectos que possam ser vendidos. Muitos passam ali grande parte do dia; outros vivem permanentemente nesses espaços. Para estas crianças, o lixo deixou de ser um problema ambiental para se tornar a única fonte possível de sustento.
Esta realidade não surge por acaso. É consequência directa da pobreza estrutural, do desemprego persistente, da fragilidade das famílias e da ausência de políticas públicas eficazes e sustentadas que protejam os mais vulneráveis. Quando uma criança depende do lixo para comer, não estamos apenas perante um problema social; estamos diante de uma falência colectiva do Estado, da sociedade e das prioridades nacionais.
“Quando uma criança depende do lixo para comer, não estamos apenas perante um problema social; estamos diante de uma falência colectiva do Estado, da sociedade e das prioridades nacionais”
O impacto desta situação é profundo e duradouro. Crianças expostas a resíduos perigosos enfrentam riscos graves para a saúde, desde doenças infecciosas até problemas respiratórios e intoxicações. Jovens que crescem neste contexto vêem comprometido o acesso à educação, à dignidade e à esperança de um futuro diferente. Muitos acabam por abandonar a escola, entrar em circuitos de marginalidade ou reproduzir ciclos de exclusão que se prolongam por gerações.
As famílias, por sua vez, vivem entre a sobrevivência imediata e a impotência. Sem rendimento estável, sem apoio social consistente e sem oportunidades reais, acabam por permitir ou não conseguir impedir que os filhos se juntem a este universo cruel, onde a infância é encurtada e a juventude consumida pela necessidade.
É urgente reconhecer que este problema não se resolve apenas com campanhas pontuais ou discursos bem-intencionados. Exige políticas públicas integradas, que articulem acção social, educação, saúde, habitação e emprego. Exige programas de apoio directo às famílias, reforço da protecção à criança, criação de alternativas económicas dignas e investimento sério em educação inclusiva e comunitária.
Os governantes não podem continuar a normalizar a presença de crianças a viver do lixo. Cada menor nessa condição é um sinal de alarme que não pode ser ignorado. O futuro de uma cidade, e de um país, mede-se pela forma como cuida das suas crianças. Enquanto houver jovens a crescer entre resíduos, estaremos todos, de alguma forma, a falhar.
OPINIÃO / geral@pocnoticias.ao / 2026




