As chuvas intensas que recentemente atingiram as províncias de Luanda e Benguela já provocaram 29 mortos, dezenas de feridos e milhares de desalojados, num cenário que volta a expor, com particular clareza, a fragilidade estrutural das principais zonas urbanas de Angola. Mais do que um episódio climático isolado, trata-se de um evento com implicações económicas relevantes, cujo impacto ultrapassa largamente o registo imediato de vítimas e danos materiais.
POC NOTÍCIAS | REDACÇÃO | geral@pocnotícias.ao | FOTO: RTP África
Os dados preliminares indicam que mais de 34 mil pessoas foram directamente afectadas, com milhares de habitações inundadas ou destruídas, sobretudo em Benguela, a província mais atingida. Em Luanda, os efeitos fizeram-se sentir de forma transversal, desde a interrupção da mobilidade urbana até aos constrangimentos no funcionamento de serviços essenciais, afectando directamente a dinâmica económica da capital. Este tipo de ocorrência traduz-se, de forma recorrente, em perdas de produtividade, perturbações nas cadeias de abastecimento e aumento da despesa pública não prevista.
Embora ainda não exista uma estimativa oficial consolidada dos prejuízos, a leitura económica é inequívoca. Os custos directos incluem a reconstrução de habitações e a reparação de infra-estruturas críticas, como estradas, redes eléctricas e sistemas de drenagem. A estes somam-se custos indirectos, frequentemente menos visíveis mas igualmente significativos, como a quebra da actividade comercial — particularmente no sector informal — e a desaceleração de sectores dependentes da mobilidade e logística urbana. Num plano mais profundo, emergem ainda custos estruturais, associados à pressão adicional sobre o orçamento do Estado e ao desvio de recursos que, em condições normais, seriam alocados a investimento produtivo.

Este episódio reforça um padrão conhecido: o crescimento urbano acelerado, especialmente em Luanda, não tem sido acompanhado por um investimento proporcional em infra-estruturas resilientes. A insuficiência dos sistemas de drenagem, combinada com a ocupação desordenada do solo, amplifica o impacto de fenómenos climáticos extremos, cuja frequência e intensidade tendem a aumentar no actual contexto de alterações climáticas. O resultado é a transformação de eventos naturais em crises recorrentes com efeitos económicos acumulativos.
Neste contexto, começa a emergir um consenso entre analistas e decisores: a necessidade de reposicionar a resiliência urbana como prioridade estratégica. O reforço de infra-estruturas críticas, o desenvolvimento de soluções de saneamento e drenagem em larga escala, a promoção de parcerias público-privadas e o acesso a financiamento internacional para adaptação climática são hoje elementos centrais de uma agenda que já não pode ser adiada.
Mais do que contabilizar os custos imediatos desta tragédia, a questão fundamental que se coloca é de natureza estratégica: qual será o custo económico de manter o actual nível de vulnerabilidade? Em cidades como Luanda, onde se concentra uma parte significativa da actividade económica nacional, a resposta a esta pergunta poderá determinar, em larga medida, a trajectória de crescimento e sustentabilidade do país nos próximos anos.
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