O Governo de Angola avançou com a formalização de uma parceria internacional para consolidar o Projecto Lisima, iniciativa estratégica orientada para a conservação da Torre de Água das Terras Altas Angolanas, um dos sistemas ecológicos mais relevantes do continente africano. A acção é enquadrada institucionalmente pelo Ministério do Ambiente e pelo INBAC, sendo executada pela Fundação Lisima, em articulação com a Conserve Global e com financiamento da Rainforest Trust.
POC NOTÍCIAS | REDACÇÃO | geral@pocnotícias.ao | FOTO: DR
A chamada “torre de água” assume um papel crítico na geopolítica ambiental da região, por concentrar as nascentes de quatro dos principais rios da África Austral. Cubango, Cuito, Zambeze e Kwanza dependem directamente desta paisagem, que, por sua vez, sustenta ecossistemas transfronteiriços e activos naturais de elevado valor, como o Delta do Okavango. Neste contexto, a sua protecção deixa de ser apenas uma prioridade ambiental e passa a integrar a agenda de segurança hídrica, estabilidade climática e desenvolvimento sustentável da região.
Com uma extensão estimada de 93 mil quilómetros quadrados de floresta de miombo intacta, a paisagem de Lisima representa uma das maiores áreas contínuas ainda não protegidas em África. A biodiversidade identificada reforça o seu valor estratégico, incluindo espécies ameaçadas como elefantes, leões, mabecos e aves em risco crítico. Estudos científicos conduzidos na última década apontam ainda para a descoberta de mais de duas centenas de espécies até então desconhecidas, evidenciando o potencial científico e ecológico da região.
Do ponto de vista de política pública, o projecto alinha-se com a Estratégia Nacional para a Biodiversidade e com os compromissos internacionais assumidos por Angola, em particular a meta global de proteger 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos até 2030. Mais do que conservação tradicional, o modelo proposto aposta numa abordagem integrada, combinando ciência aplicada, conhecimento tradicional e governação participativa.
O envolvimento comunitário surge como eixo central da implementação. O Projecto Lisima está a estruturar acordos de conservação com autoridades tradicionais, ao mesmo tempo que promove alternativas económicas sustentáveis. Agricultura regenerativa, produção de mel, ecoturismo e pequenos negócios locais são algumas das linhas de intervenção que visam reduzir a pressão sobre os recursos naturais e aumentar a resiliência socioeconómica das populações.
Em paralelo, já foram registados avanços operacionais relevantes, incluindo o mapeamento de territórios comunitários, a capacitação de dezenas de monitores ambientais e a implementação de iniciativas-piloto de subsistência. Estes resultados iniciais funcionam como prova de conceito para um modelo que ambiciona escala nacional e replicabilidade regional.
Com o suporte técnico internacional e financiamento assegurado, Angola procura afirmar-se como um actor emergente na arquitectura de conservação africana, promovendo uma abordagem que articula preservação ambiental com desenvolvimento inclusivo. A ambição passa por transformar a paisagem de Lisima num caso de referência, capaz de demonstrar que a protecção dos ecossistemas pode coexistir com geração de valor económico e estabilidade social a longo prazo.
@geralpocnotícias.ao



