A decisão do Ministério da Indústria e Comércio de autorizar a importação de 250 mil toneladas de cimento até Junho surge como resposta de emergência à escassez que se instalou no mercado nacional, mas expõe, uma vez mais, a vulnerabilidade de um sector excessivamente dependente de um único operador dominante.
POC NOTÍCIAS | EMANUEL DOMINGOS | geral@pocnoticias.ao | Foto: DR
A paralisação quase total da actividade da cimenteira CIF, a maior unidade produtora do país revelou o peso desproporcionado que a empresa detém na oferta de cimento. Privatizada em 2024, a interrupção das suas operações teve impacto directo no abastecimento, contribuindo para uma escalada abrupta dos preços e colocando em evidência sinais de concentração que levantam questionamentos sobre o funcionamento concorrencial do mercado.
Num contexto em que a produção interna não conseguiu responder à procura, o Executivo recorreu à importação como solução imediata. O concurso público lançado em Janeiro contou com apenas um concorrente, o Grupo Anseba, de origem eritreia, que assumirá o fornecimento em dois lotes, sendo que 150 mil toneladas até 31 de Março e 100 mil toneladas até 30 de Junho, reforçando a percepção de limitada competitividade no sector.
A subida do preço do saco de cimento de 50 quilos, que chegou a ultrapassar os 10 mil kwanzas no mercado informal em Dezembro, reflecte as consequências dessa dependência estrutural. Apesar de uma ligeira redução recente, com valores entre 8.500 e 9 mil kwanzas em alguns pontos de venda de Luanda, os preços permanecem elevados, afectando directamente o custo da construção e o orçamento das famílias.
Especialistas apontam que a situação evidencia não apenas uma crise conjuntural de produção, mas uma fragilidade estrutural ligada à concentração de mercado. A predominância de um único produtor com capacidade de influenciar a oferta coloca desafios à estabilidade de preços e à segurança do abastecimento, reacendendo o debate sobre a necessidade de políticas que promovam maior diversificação industrial e concorrência efectiva no sector cimenteiro.
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